Nessas últimas semanas tenho feito maratona de In Treatment, até porque eu estava bem atrasado, então aproveitei um pouco do feriado para ver logo tudo de uma vez. Incrível como essa série se torna fascinante a cada episódio, a cada personagem que entra na sala de Paul e senta no seu sofá para tentar entender a vida, entender os casos da vida, os desejos que giram em torno dela, os anseios, os problemas. Mais incrível ainda, é que In Treatment não gira apenas em cima dos pacientes do seu terapeuta, mas também em torno dele próprio.
Todos os personagens de Paul apresentam problemas, obviamente. Alguns admitem que existe uma dificuldade para se compreender certas coisas. Outros acham que não precisam de terapia. É o caso da garota Sophie, que sofreu um acidente, faz com que Paul tente entender os motivos que levaram a este acontecimento: suicídio ou um mero acidente? Mas, para Sophie, a terapia é apenas um processo pelo qual está sendo obrigada a passar. No entanto, Paul vai se aprofundando ainda mais na história da garota e percebe que ela pode estar tendo um caso com o seu treinador de ginástica.
Paul precisa lidar também com a transferência sexual, um tipo de teoria que é muito bem explicada pela sua mentora, Gina. Logo na primeira sessão em que a série nos apresenta o seu terapeuta e o seu primeiro paciente, nos deparamos com Laura, levando em seu rosto um tom mórbido, com um olhar perdido, uma inquietação ao estar sentada ali. A conversa continua e em um determinado momento ela abre o seu coração para Paul, dizendo que está apaixonada. Logicamente, o terapeuta fica sem reação no primeiro momento, mas ele parece não se importar com o que acabara de ouvir e continua a sessão, tentando agora entender os motivos que levaram Laura a se apaixonar por ele.
E a genialidade de In Treatment já começa desde este episódio. Primeiro porque ela não se limita apenas a mostrar a sessão entre o terapeuta e o seu paciente. A série, no início de alguns episódios, faz questão de mostrar como é a vida de Paul, uma espécie de humanização do seu personagem, um desenvolvimento realmente necessário. E isso fica claro quando a terapia do casal Jake e Amy termina mais cedo que o previsto por conta de um princípio de aborto. Paul, então, chama a sua mulher para ajudá-lo a limpar o sangue que havia ficado no seu sofá e os dois começam a discutir a relação. Parece mesmo que o terapeuta se esconde em seu escritório, em sua sala ou se esconde atrás dos problemas dos seus pacientes. O fato é que Paul estava lidando com muitos problemas e não conseguia conciliar o seu trabalho com a sua família, não dando atenção para ela, levando a sua mulher a constituir um caso com uma outra pessoa. E a discussão vai ficando cada vez mais dramática, tendo uma contribuição muito importante das interpretações dos dois atores, principalmente de Gabriel Bryne (Paul).
Esta nova série da HBO representa tudo de melhor que uma série pode ter. Um roteiro muito inteligente, com diálogos idem e interpretações realmente fascinantes, que ajudam a causar o choque que a série procura passar. Rodrigo García consegue mesmo prender a atenção do telespectador, porque as histórias ganham intensidade durante os trinta minutos de exibição de cada episódio, sendo que nem todos chegam a ter esta duração. A HBO sempre faz coisas diferentes e já sabemos da qualidade que ela possui ao produzir novos programas, porque a maioria deles fogem do que estamos acostumados a ver, até por ser exibidos em canais fechados. É o caso de outras emissoras, como a AMC, que produziu Mad Men (vencedor do Globo de Ouro de 2007), a FX que lançou no ano passado Damages e vem mantendo o sucesso Nip/Tuck. A Showtime também entra nessa briga com duas séries muito boas, Breaking Bad e Dexter, principalmente.
No entanto, a HBO não gostou muito dos resultados de In Treatment em relação à audiência. Primeiro que a série possui cinco episódios por semana, acompanhando o cotidiano do seu terapeuta e dos pacientes que têm consulta marcada com ele naqueles dias. Além disso, os trinta minutos de puro diálogo podem causar certa sonolência para aqueles que não gostam de programas monótonos e muito conversados. A narrativa do seriado se constitui exatamente nos diálogos e também no comportamento de cada paciente, por isso a câmera sempre procura focar o rosto tanto do terapeuta quanto do paciente, mas também o ambiente. Pouquíssimas vezes se é possível ouvir alguma trilha sonora, porque ela tenta criar uma imagem para a realidade. Por isso que o silêncio é tão importante, representando o que de fato é uma sessão de terapia.
Não é todo dia que se lança séries boas na televisão. In Treatment possui todos os ingredientes necessários para conquistar os estudantes de Psicologia, mas também aquele grupo de pessoas que gostam de ver coisas um pouco mais diferentes do que normalmente se produz. Apesar dos números não estarem muito ajudando, In Treatment está sendo super elogiada pela crítica especializada, reconhecendo o esforço dela em se tornar real, em se tornar um reflexo da realidade de um psicoterapeuta. Mas, principalmente, por conter um arco narrativo muito inteligente e personagens completamente diferentes uns dos outros, fazendo com que o próprio Paul precise se consultar com a sua mentora para que possa descarregar tudo aquilo que ele absorve durante os dias em que atua como terapeuta.


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